Da escolha de embriões à contagem de animais, novas tecnologias também podem melhorar o bem-estar do rebanho
Monitor mostra contagem de animais feita por câmeras. (Foto: Osmar Veiga)
A integração entre a pesquisa acadêmica e a inovação tecnológica está desenhando novos caminhos para a pecuária de corte. Durante a Pantanal Tech, em Aquidauana, um estande mostrava a parceria entre a empresa Panta Embryo e a startup Kerow, de Campo Grande, que desenvolve soluções baseadas em inteligência artificial e visão computacional para aumentar a eficiência reprodutiva e monitorar o rebanho diretamente no pasto, reduzindo a necessidade de manejos físicos constantes.
Parceria entre a Panta Embryo e a startup Kerow desenvolve soluções de inteligência artificial para pecuária de corte, incluindo seleção automatizada de embriões e monitoramento de rebanho por câmeras. O sistema identifica bovinos pelo espelho nasal, registra peso com erro de 3% e reduz manejos físicos, diminuindo o estresse animal e acidentes de trabalho no campo.
A coordenadora do Gentra (Grupo de Estudos em Tecnologia da Reprodução Animal) da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), Fabiana Sterze, de 49 anos, explica que os trabalhos buscam adaptar ferramentas digitais para a realidade da reprodução animal, atuando na melhoria da eficiência da inseminação artificial e da transferência de embriões bovinos. Um dos três produtos em desenvolvimento pelo grupo foca na seleção de embriões, uma atividade que hoje depende majoritariamente da avaliação visual humana.
“Hoje em dia, essa seleção ela é feita pelo olho humano. Então, assim, você às vezes tem uma percepção, você tem outra, e eu tenho outro lógico que, com uma base morfológica. Mas existe uma grande variação do olho humano”, aponta Fabiana.
A nova ferramenta visa padronizar essa análise para escolher os embriões com maior potencial de desenvolvimento de gestação, tanto por transferência fresca quanto congelada. Segundo a pesquisadora, os reflexos dessa automação laboratorial aparecem diretamente no pasto: “Para o produtor, ele vai sentir a hora que ele tiver melhores taxas de preenche, quando ele tiver uma maior rentabilidade pelo ganho genético e menor perda dessas gestações. Lá no campo, tá?”.
As outras soluções desenvolvidas estendem-se para além do laboratório, alcançando o manejo de campo por meio de um sistema chamado “Endrofarm”. A proposta consiste em integrar a visão computacional ao monitoramento da saúde, peso, ingestão de água e condição corporal dos bovinos utilizando câmeras ligadas a painéis solares e softwares. A tecnologia possibilita, por exemplo, avaliar fêmeas receptoras de embriões com base em um histórico de longo prazo, superando o modelo atual que analisa o animal apenas no dia do início do protocolo reprodutivo.
“Se a gente consegue fazer esse acompanhamento através das câmeras, a gente tem um histórico de longo prazo que vai facilitar demais e otimizar os resultados”, afirma Fabiana Sterze.
O funcionamento prático desse monitoramento baseia-se na transformação de imagens em dados biométricos reais. O CEO da Kerow, Fabrício Weber, detalha que o sistema extrai medidas corporais de forma automatizada e realiza a identificação dos animais de forma semelhante ao reconhecimento facial de smartphones, monitorando a distância entre olhos e orelhas, além de mapear o espelho nasal (focinho), que atua como uma impressão digital única de cada bovino.
“A gente usa visão computacional e inteligência artificial, então a gente pega essas imagens, tanto o vídeo como a imagem, tira as medidas com um pixel, transforma para medidas em reais, em real, medida real. Então é como se eu tivesse com uma trena, tirando todas as medidas possíveis, biométricas desse animal, para transformar ela numa informação computacional”, explica Fabrício.
A empresa conduz pesquisas com animais de zero a dois anos de idade para comprovar que o desenho do espelho nasal não se altera com o tempo, o que pode transformar a tecnologia em um mecanismo de rastreabilidade nacional.
Em relação à disponibilidade comercial, as tecnologias encontram-se em fases distintas. A contagem de animais por meio de imagens de celulares ou VANTs (veículos aéreos não tripulados) já está disponível para os pecuaristas. Já os sistemas de identificação e pesagem por imagem passam por validação em parceria com produtores para ampliar a base de dados e refinar a precisão.
Stand da Kerow na Pantanal Tech. (Foto: Osmar Veiga)
Atualmente, o sistema registra o peso dos animais com um erro médio de 13 quilos no final do confinamento, o que equivale a uma variação de apenas 3% em um animal de 500 quilos. De acordo com a empresa, o índice é comparável à margem de erro das balanças físicas tradicionais, que chegam a até 5%. Fabrício Weber esclarece que a existência de uma margem de erro indica que a inteligência artificial está discernindo as características biométricas em vez de apenas memorizar padrões fixos, o que inviabilizaria o sistema caso o animal sofresse uma modificação leve, como um corte na face.
“A visão computacional, a inteligência artificial, se não tiver uma margem de erro, a gente fala que ela decorou e aprendeu, tá? Então ela não consegue distinguir, ela simplesmente decora”, argumenta o executivo.
Para os desenvolvedores, o principal ganho da pesagem e identificação por câmeras reside no bem-estar e na segurança do ambiente rural. Ao reduzir o fluxo de animais pelos troncos e balanças convencionais, o sistema diminui o estresse do rebanho e os índices de acidentes de trabalho que afetam os operadores no campo.
“O que nós buscamos é isso, porque a gente, além de querer mais eficiência, a gente quer menos estresse dos animais”, pondera Fabrício Weber, concluindo que “a ideia é diminuir o manejo dos animais, e isso vai diminuir tanto a injúria do ser humano quanto dos próprios animais”.
Fonte:Campograndenews.com.br Autor:
*Conteúdo produzido com suporte de IA



