Mary Shelley nos brindou com a obra Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno. Conta a história que ela a escreveu muito jovem, com uma motivação dada por um desafio diletântico entre amigos. No livro, Frankenstein foi criado por Victor Frankenstein, um cientista suíço fascinado por questões da vida e da morte, e que queria trazer sua contribuição para a ciência, dando vida para um ser de 2,5 m. Embora no nascedouro Frankenstein fosse bom e inteligente, buscando seu espaço na sociedade, pela rejeição vivenciada, já que não era algo que ela desejava, foi se deprimindo, se tornando solitário, agressivo e vingativo. Ele se tornou um problema no lugar de uma solução.
Resumindo, Frankenstein não era desejado nem esperado. Não tinha espaço para ele no mundo e não houve nenhuma preparação para apoiá-lo. Fazia parte dos desejos do criador somente, mas não no ambiente em que deveria viver. Ao contrário, gerava medo e afastamento das pessoas. Victor, no lugar de perguntar: “Por que precisamos disso?”, ele se contentou com “por que preciso disso?”. O ego proporciona respostas diferentes do entendimento e percepções externas.
Muito mais do que respostas adequadas, o mundo demanda muito perguntas adequadas. Daí, podemos ter respostas adequadas. O mundo é movido a isso: perguntas que possam desencadear respostas de maneira criativa e com chances de se transformar em benefício para alguém, em algum momento. Num ambiente em que temos que pensar no que deveria inovar, é fundamental identificar quais são as perguntas mais relevantes para trazer um novo conceito, uma nova teoria, um novo modelo, um novo serviço, uma nova disciplina ou mesmo um novo produto.
A pergunta “por que precisamos disso?” é absolutamente essencial durante qualquer etapa desse processo, por ser estratégica e delimitadora. Pode não apenas permitir o desenvolvimento de algo útil, mas também preparar melhor uma inovação para que seja utilizada onde é demandada, ou mesmo ajustar o projeto. O mundo não sofre por falta de respostas, mas por perguntas mal formuladas, ou não formuladas, ou não amadurecidas, ou desconectadas de algum segmento de realidade da sociedade.
Podemos encontrar serviços, produtos ou mesmo cursos que, ao aplicarmos a pergunta, a resposta pode nos levar a uma grande dificuldade de responder e, na sequência, de defendê-los. Para piorar, em alguns casos, algo que conseguia responder com clareza no passado, num momento posterior, o andamento se mostra contraditório e desfavorável à inovação proposta.
Um dos problemas possíveis diz respeito a trocar uma pergunta vital, estratégica e de limitação por outra, operacional e mais voltada para a execução, como se a pergunta vital já estivesse solucionada. Ou seja, se não consigo responder “por que precisamos disso?”, vale a pena discutir, por exemplo, “como minimizar custos do projeto?” ou “desenvolver uma solução de IA” para um problema que não se sabe se realmente existe, ou seja, que seja relevante em algum momento? Ao promover uma pergunta secundária para o nível de uma pergunta estratégica, deslocamos o eixo de prioridade e aquilo que deveria apoiar o desenvolvimento vai gerar uma consequência negativa num momento futuro. Essa troca do essencial pelo acessório, que é útil no seu devido tempo, tem preço.
Num ambiente de pesquisa, tanto na área pública como privada, essa pergunta mexe com muitos ingredientes relacionados com as pessoas, já que necessitamos de toda uma trajetória formativa para proporcionar questionamento com finalidades práticas. Aprendemos no ensino regular como explicar o mundo, como ele é composto etc. Esse conhecimento comumente é arraigado, não é neutro e afeta as próprias prioridades de vida no sentido individual e grupal. Alguém que aprende a pensar em soluções mecânicas para uma situação que permite soluções químicas, tenderá a analisá-la com a sua estrutura de conhecimentos e também de limites. Alguém que tem uma visão participativa de processo de gestão no seu aprendizado formal, vai resistir a abordagens autoritárias excessivamente top down, por exemplo.
A consequência do que ensinamos no desenvolvimento das pessoas tem enorme impacto sobre o desenvolvimento durante toda a vida. Uma resposta frequente é: “mas é isso que eu sempre estudei e aprendi!”. Tudo certo, mas que tal, no lugar de usar o capital intelectual simplesmente para dar continuidade a algo que pode não ter utilidade, buscar um problema relevante e ligar esse mesmo capital para reforçar algo que pode ser desejado ansiosamente?
Temos algum nível de consciência ontológica, no sentido de esperar algo da vida para si e outrem. Como consequência, será necessária alguma massa crítica epistemológica que permita aprofundar e propor algo novo, a partir dos vários tipos de conhecimento. Dentro de uma organização, esses ingredientes têm efeito coletivo, afetando o horizonte do grupo, ainda que direcionado profundamente pelas características individuais.
No ambiente público, existem muitas decisões de alta relevância que demandam longo prazo para serem realizadas. Demandam elementos variados, como o político, a capacitação técnica e gerencial, além de recursos financeiros. Quando surge a pergunta “por que precisamos disso?”, muitas vezes os envolvidos se sentem ofendidos.
Parece até ataque pessoal. Será? Quando essa pergunta adequada é feita, gera um exercício mental de grande abrangência estratégica, forçando a pensar em quem deve se beneficiar pela inovação, caracterizando, inclusive, níveis diferentes de beneficiados e priorizados. Seja um conceito, uma teoria, um serviço ou um produto, esse impacto pode ser analisado criticamente.
As coisas andam muito rápidas na sociedade e muitas atividades, embora planejadas de maneira responsável institucionalmente falando-se, apresentam inércia entre a concepção e a entrega e chegar ao momento concreto da entrega do que se decidiu. Num ambiente estável, a decisão ocorre e é provável que não necessite ser confirmada ou ratificada. Difícil definir ambiente estável quando olhamos o mesmo de uma forma ecossistêmica: alguns fatores de mudança sempre estarão afetando as organizações, tanto provenientes da sua perspectiva interna como dos stakeholders externos que atuam no seu ecossistema. De qualquer forma, se não tenho clareza do porquê quero algo, fica irrelevante fazê-lo melhor, com maior qualidade.
Se o mundo anda rápido, a expectativa de respostas rápidas é uma certeza. Essas respostas podem ser ações de vários tipos e magnitudes no tempo. Essa demanda obriga as pessoas dentro das organizações a aceitar perguntas não otimizadoras, mas aquelas que organizacionalmente sejam entendidas como razoáveis para não dar uma impressão de inércia, quando na verdade seria necessária uma perspectiva temporal mais orgânica para entender e reagir.
Temos grandes tendências no mundo, demandando respostas para problemas de curto prazo, médio prazo e de longo prazo. Podemos pensar por várias dimensões: sustentabilidade como um todo, pobreza e fome no mundo, criminalidade, apoio para questões de saúde, modelos que aperfeiçoem gestão na convivência com IA, dentre tantos temas relevantes.
Outro elemento importante é o conceito de concorrência, de grande utilidade para o raciocínio. Afinal, se existe uma demanda, ela pode estar sendo atendida por outro elemento, diferente daquele que posso oferecer? Com isso, vem a pergunta: “a sociedade ainda precisa disso?”. As respostas para a pergunta surgem em várias dimensões: no nível individual, no nível institucional no departamento, faculdade e reitoria, no nível regulatório e de incentivo numa Capes, no CNPq e Fapes, com olhares potencialmente bem diferentes. O nível individual tem que se preparar para convencer os demais, ou se alinhar preponderantemente. Simples assim.
O problema da criação de Frankenstein foi uma não resposta para o “por que precisamos disso?”. Na verdade, para o criador, existiam respostas individuais, sem conexões com o coletivo e regulatório. Inúmeras inovações, pesquisas e decisões existem porque são possíveis, não porque são necessárias. É, o Frankstein era possível, mas não necessário para as pessoas, exceto o seu criador. Victor nunca fez a pergunta “por que precisamos disso?”. Ele entendeu que a percepção “porque posso fazê-lo” era suficiente para a pergunta “por que preciso disso?”. No caso de Victor, a resposta só atendia ao próprio ego. Uma mudança na pessoa gramatical de um único verbo poderia mudar tudo.
Como pesquisador, ao fazer uma reflexão devo pensar como ela se aplica a mim; afinal, o muito citado “you walk the way you talk” é vital para a coerência da vida. Tenho que vigiar meus passos no direcionamento de projetos de pesquisa, me perguntando “por que precisamos disso?” Se não o fizer, tem uma grande possibilidade de que eu venha a criar um projeto com cara e nome de uma criatura já citada nesta reflexão…
(*) Fábio Frezatti, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP
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Fonte:Campograndenews.com.br Autor:
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