Os dois termos de origem grega que intitulam a presente trilogia são fáceis de confundir pela sonoridade parecida. Vale atentar para a distinção entre os parônimos: enquanto -topia, que vem de tópos, fala de lugar, -tropia, que deriva de tropē, indica desvio, mudança de orientação e transformação.
No primeiro sentido, de desvio, o vocábulo tropia é corrente no campo da oftalmologia. Designa o desvio ocular manifesto, em que o desalinhamento dos eixos visuais é perceptível quando os dois olhos estão abertos e tentando focar um objeto. É uma das formas de estrabismo.
Anomalia análoga se manifesta também no mundo das instituições, inclusive em universidades. O autor é testemunha da frustração de um docente de universidade estadunidense que teve a sua efetivação (tenure) recusada por ter enfatizado em sua carreira inovações pedagógicas ao invés de publicações em periódicos acadêmicos requintados. De nada valeu, nem em juízo, a argumentação de que seguira a orientação de priorizar a renovação do ensino, objetivo institucional que, anos antes, pautara o discurso de posse do presidente daquela universidade.
A segunda acepção, de mudança de orientação, está presente no campo da biologia pelo conceito de tropismo. Trata-se do fenômeno da resposta de um organismo, geralmente uma planta, a um estímulo externo que atua com maior intensidade a partir de uma direção do que de outra. Esse comportamento pode se dar por movimento ativo ou por alteração estrutural. Todos testemunhamos o fototropismo positivo, que é o crescimento doméstico de um caule em direção à janela para receber a luz solar. E é sobejamente conhecido o hidrotropismo, quando raízes de uma planta desviam o seu caminho para buscar zonas mais úmidas do solo.
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Esse conceito oferece uma metáfora fértil para pensar como grupos acadêmicos se posicionam em relação a outros segmentos da sociedade. Os grupos naturalmente se orientam para onde há financiamento, reconhecimento e legitimidade. Grupos dinâmicos têm plasticidade que lhes permite recalibrar respostas em função de oportunidades cambiantes. À diferença do tropismo no campo biológico, em que os organismos apenas respondem a estímulos, grupos acadêmicos podem também participar da definição do que conta como necessidade social genuína, mediante realização de estudos e diagnósticos, assim como pela proposição de agendas.
O tropismo é virtuoso quando coincide com demandas sociais relevantes. Será pernicioso quando apontar para modismos, interesses corporativos ou formas de cooptação. Neste aspecto, cabe observar que são crescentes os esforços de estruturas associadas a interesses geopolíticos para aliciar setores estridentes de universidades emblemáticas a causas sectárias.
É na terceira acepção, de transformação, que o termo -tropia se torna instigante e abrangente, ao constituir o nome entropia, proposto pelo físico e matemático Rudolf Clausius em 1865. Ele associa essa grandeza à quantidade de energia térmica de um sistema que se dissipa e, portanto, está indisponível para realizar trabalho útil. Essa ideia fundacional abre novos horizontes para a ciência e para a tecnologia: ao contrário da energia, que se conserva, a entropia fornece uma “seta do tempo” para os processos físicos, indicando o sentido preferencial no qual eles ocorrem naturalmente.
O neologismo entropia, que substitui o nome alemão original Verwandlungsinhalt, traduzível como “conteúdo de transformação”, é assim explicado por Clausius: “Prefiro recorrer às línguas antigas para os nomes de grandezas científicas importantes, para que tenham o mesmo significado em todas as línguas vivas. Proponho, portanto, chamar S de entropia de um corpo, inspirado na palavra grega que expressa transformação”.
E comenta: “Criei propositalmente o termo entropia assemelhado a energia, pois essas duas grandezas são tão análogas em seu significado físico que a similaridade na denominação me pareceu útil”. Esse pareamento está registrado na própria sinopse das leis da termodinâmica com que Clausius conclui o artigo de 1865 em que expõe o conceito de entropia: 1) A energia do universo é constante; 2) A entropia do universo tende a um máximo.
Esse notável cientista alemão inicia a sua carreira na icônica Universidade de Berlim, que, na classificação do professor Naomar (vide parte 1), é paradigmática do modelo utópico de universidade. Ali avança as bases do que passa a ser conhecido como a segunda lei da termodinâmica: o calor flui espontaneamente de um corpo quente para um corpo frio, nunca no sentido contrário – a menos que se realize trabalho, como acontece numa geladeira.
É nos frutíferos anos que Clausius passa em Zurique que a noção de entropia se consolida e recebe formulação matemática precisa. O seu trabalho pioneiro é favorecido pelas condições oferecidas por essa cidade, que se estabelece, a partir de meados do século 19, como um vibrante centro intelectual, científico e artístico. A neutralidade política suíça e as reformas liberalizantes contribuem para atrair figuras de vanguarda em diversos campos, como Einstein na física, Wagner na música, Jung na psicologia, Joyce na literatura, Lenin na política e Tzara nas artes.
Nesse período, Zurique se torna a sede de duas instituições adjacentes, mas distintas, que se influenciam reciprocamente. A primeira é a Universidade de Zurique que, estabelecida por um Estado democrático, ao invés de um monarca ou de uma igreja, permite um grau de liberdade acadêmica e de pesquisa raro na época. Na sequência, surge o Polytechnikum, posteriormente denominado ETH Zurique, criado pelo governo federal para impulsionar a industrialização daquela nação confederada. Clausius se vincula às duas instituições simultaneamente, condição que era comum então – e é infrequente na universidade brasileira, mesmo nos dias de hoje.
Esse ambiente acadêmico estimulante atrai estudantes de diversas origens, sendo um deles o jovem ituano Antônio Francisco de Paula Souza. A vivência no Polytechnikum se torna uma das inspiradoras do seu principal legado – a criação da Escola Politécnica, hoje parte da USP, que idealiza e propõe ao longo do mandato de deputado estadual. Diretor nos primeiros 24 anos de existência da Poli, orienta-a para ser, como as congêneres europeias que conhecia, um vetor do ideário de modernização industrial do País, mediante a formação de engenheiros multidisciplinares e a produção de tecnologia.
A ideia de entropia tem instigado numerosas mentes científicas brilhantes, inicialmente nas ciências exatas e na engenharia. É o caso, já na década seguinte ao artigo de Clausius, do físico e matemático austríaco Ludwig Boltzmann, reconhecido como o criador da mecânica estatística. Ele mostra que a segunda lei da termodinâmica, que trata da troca de energia, poderia ser explicada aplicando-se as leis da mecânica e a teoria da probabilidade aos movimentos de partículas. Ao investigar a transição de moléculas gasosas de um estado ordenado para o máximo de desordem por meio de colisões aleatórias, caracteriza o estado final como sendo de “entropia máxima”. Ao ligar o conceito de entropia à desordem molecular, Boltzmann planta a semente da percepção da entropia como uma medida genérica de desordem.
A noção de entropia ganha um âmbito maior em meados do século 20, ao ser adotada no então emergente campo da teoria da informação. Em 1948, enquanto trabalhava no icônico Bell Labs, o engenheiro Claude Shannon propõe quantificar matematicamente a informação perdida nos sinais das linhas telefônicas, mediante utilização de ferramentas estatísticas. Ao longo desse projeto, ele desenvolve o conceito fundamental de entropia da informação.
A adoção do nome entropia nesse novo contexto se deve a um encontro entre Shannon e John von Neumann, engenheiro químico formado pelo ETH Zurique e, concomitantemente, doutor em matemática pela Universidade de Budapeste. Dotado de mente invulgarmente brilhante, escapa da Europa às vésperas da ascensão do regime nazista e é incorporado, junto com Albert Einstein, ao corpo de pesquisadores do recém-criado Instituto de Estudos Avançados de Princeton. Ali, junto com o economista Oskar Morgenstern, desenvolve a Teoria dos Jogos, que é hoje aplicada em áreas tão diversas como economia (fundamenta mais de 15 laureados Nobel), biologia, computação, ciência política e engenharia de produção.
Ao ouvir de Shannon que estava em busca de um designativo para “informação faltante”, von Neumann lhe sugere que use o nome entropia. Oferece dois argumentos, o primeiro sério e o segundo espirituoso: “Em primeiro lugar, já existe um desenvolvimento matemático muito semelhante ao seu na mecânica estatística de Boltzmann. Em segundo lugar, ninguém compreende muito bem a entropia, pelo que em qualquer discussão você estará numa posição vantajosa.”
À semelhança do que acontece com outras ideias potentes, como a de inovação em nossos dias, o vocábulo entropia rapidamente se populariza, passando a ser usado em sentidos cada vez mais ampliados, até ser empregado em cotidianos prosaicos. Aumento de entropia torna-se a forma pseudo-erudita de indicar desordem crescente de qualquer natureza.
Aqui e ali surgem reações ao uso descuidado desse termo, buscando preservar o conceito técnico original. O professor de química estadunidense Frank Lambert exemplifica os defensores estridentes do uso restrito do nome, dedicando parte significativa de sua vida centenária a essa causa. No rico sítio na internet em que divulga artigos educativos sobre entropia, seus e de outros cientistas, destaca-se o texto de sua autoria que tem o título incisivo Cartas embaralhadas, mesas bagunçadas e dormitórios desorganizados — exemplos de aumento de entropia? Bobagem!.
A opacidade do conceito de entropia e sua utilização generalizada ressoam em nosso meio e em nossos dias. O bom colega José Eli da Veiga, estudioso da complexidade e professor sênior do Instituto de Estudos Avançados, divulga em dias seguidos uma coluna na Rádio USP e um artigo no Valor Econômico, chamados respectivamente Entropia, segunda lei da termodinâmica e Você disse “entropia”?. Neste, José Eli recomenda efusivamente o livro L’Entropie Créatrice (“A Entropia Criadora”), escrito por dois físicos e um paleontólogo-biólogo.
A denominação paradoxal da obra indicada ecoa o também aparentemente contraditório conceito de “destruição criadora” (creative destruction, no original inglês). Essa ideia, qualificada como o fato essencial do capitalismo, é proposta em 1934 pelo “profeta da inovação” Joseph Schumpeter, um economista austríaco radicado nos Estados Unidos, onde se torna professor da Universidade de Harvard. A relevância duradoura desse conceito é evidenciada pela concessão do Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel 2025 a dois estudiosos “pela teoria do crescimento sustentado por intermédio da destruição criadora”. A justificativa para o terceiro contemplado é “ter identificado os pré-requisitos para o crescimento sustentado”.
O primeiro capítulo do livro recomendado por José Eli tem o sugestivo título (em tradução) Um conceito misterioso no centro da física: a entropia. Observam os autores que “A palavra entropia, envolta numa aura de estranheza, causa arrepios”. Ao mesmo tempo, reforçam a necessidade de cuidado para evitar a associação direta com desordem e caos, que é não apenas falsa como também eticamente contestável.
Por outro lado, valorizam o grande interesse que existe por esse conceito: “A entropia é fascinante: é vista como uma possível resposta para os grandes mistérios do Universo, da vida e das sociedades humanas. Se a entropia é tão onipresente e indispensável na física, e se o seu impacto é tão poderoso e abrangente, é porque ela incorpora um princípio universal. Se for esse o caso, precisamos compreender melhor esse conceito, para captar melhor a essência fundamental em suas múltiplas formas”.
E arrematam em grande estilo: “A entropia merece nossa atenção, especialmente se puder nos ajudar a entender nossa sociedade e seu futuro”.
Uma base robusta para esse entendimento abrangente é fornecida pelo notável físico e matemático austríaco Erwin Schrödinger, conhecido popularmente por ser o criador de um famoso gato teórico. Ele leciona na Universidade de Zurique nos anos 1920, onde transforma radicalmente a física pelo desenvolvimento da mecânica ondulatória e pela elaboração da importante equação que leva o seu nome.
Embora não sendo judeu, é perseguido por se opor abertamente ao nazismo, o que o leva a se refugiar na Irlanda ao ensejo da anexação da Áustria pela Alemanha. A convite do então primeiro-ministro irlandês, também matemático, ingressa no recém-criado Instituto de Estudos Avançados de Dublin. Ali profere uma série de conferências sobre a aplicação de princípios da física quântica a estruturas biológicas. As conferências, cujo público sempre excede a capacidade do auditório, contribuem para o desenvolvimento da biologia molecular e inspiram os descobridores do DNA. O interesse despertado o faz elaborar o influente texto O Que é Vida?, publicado em 1944, escrito em linguagem acessível.
O capítulo 6 da obra trata da Ordem, Desordem e Entropia. Nele, Schrödinger mostra que o questionamento sobre a aplicabilidade da segunda lei da termodinâmica à vida humana deve levar em conta que a biosfera não é um sistema isolado. O crescimento da ordem num organismo vivo não contraria a referida lei, uma vez que é compensado pelo crescimento da desordem no seu entorno, causado pela perda de calor para o ambiente.
Schrödinger esquadrinha então a ideia de “entropia negativa”, que faz questão de indicar não ser de sua autoria: “Como expressaríamos, em termos da teoria estatística, a maravilhosa faculdade de um organismo vivo, por meio da qual ele retarda a degeneração rumo ao equilíbrio termodinâmico (a morte)?”. E responde: “Ele se alimenta de entropia negativa (…), a fim de compensar o aumento de entropia que produz ao viver”. E explica: “O mecanismo pelo qual um organismo se mantém em um nível razoavelmente elevado de organização (= nível razoavelmente baixo de entropia) consiste, na verdade, em extrair continuamente organização de seu ambiente”.
As proposições de Schrödinger e Shannon, combinadas com as conceituações de Norbert Wiener no memorável livro Cibernética, publicado em 1948, levam o físico francês Léon Brillouin, refugiado nos Estados Unidos após a invasão da França pelos alemães, a cunhar o neologismo neguentropia. Esse contraponto à entropia permite descrever a tendência de sistemas complexos, como seres vivos e instituições, a aumentarem sua organização sem ferir a segunda lei da termodinâmica. Enquanto sistemas isolados tendem à desordem, a neguentropia explica como organismos que atuam em sistemas abertos importam energia do ambiente para manter a estrutura, ordem e equilíbrio.
A dualidade entropia – neguentropia é relevante para a Geografia, como exposto no Seminário Internacional Milton Santos – 100 anos: um Geógrafo do Século 21, realizado na USP em maio de 2026. Ela comparece na obra De la totalidad al lugar, publicada há exatos 30 anos pela Universidade de Barcelona, por ocasião da outorga de um dos numerosos títulos honoríficos que recebeu.
Estudiosos das organizações rapidamente percebem a importância desse “novo” conceito. Uma década depois do termo ser cunhado, os professores Katz e Kahn o incorporam no capítulo sobre eficiência em sua obra referencial Psicologia Social das Organizações. Assim, “Como sistemas abertos, as organizações sobrevivem apenas enquanto forem capazes de manter a neguentropia — isto é, importar, sob todas as formas, quantidades de energia maiores do que aquelas que devolvem ao ambiente na forma de produto”. E explicam: “A razão para isso é óbvia. A entrada de energia em uma organização é, em parte, investida diretamente e objetivada como produto organizacional. No entanto, parte dessa entrada é absorvida ou consumida pela própria organização. Para realizar o trabalho de transformação, a própria organização deve ser criada, energizada e mantida; tais exigências refletem-se em uma inevitável perda energética entre a entrada e a saída”.
Finalmente, os autores fazem a indagação crítica: “Para todos os sistemas abertos, é pertinente questionar a magnitude desse custo. Quanto da energia que flui do exterior para o sistema emerge na forma de produto e quanto é absorvido pelo próprio sistema?”.
Os conceitos de entropia e neguentropia começam a ser considerados em alguns estudos sobre gestão universitária. Em 2020, Carr-Chellman, Freeman e Kitchel publicam o artigo Negentropy: Systems Theory and Chaos for University Leadership and Management, no Journal of Higher Education Management. Observam a necessidade de evitar o desgaste que afeta as organizações ao longo de sua existência: “À medida que qualquer organização progride, ela continuamente incorpora novas responsabilidades, responde a novos requisitos, expande-se e gera uma entropia natural. Agentes neguentrópicos impedem que a desintegração prevaleça”.
Argumentam que sobreviver não é um objetivo acadêmico legítimo: “Mas uma universidade viva requer mais. A simples manutenção da estrutura existente, o que poderíamos interpretar como a prevenção da desintegração, não é, por si só, suficientemente neguentrópica para uma organização de ensino superior. A liberação de novas energias envolve a introdução de algo novo que, embora possa causar perturbação inicial, não leva à desintegração”.
E insistem na importância da estratégia de inovação da (e não apenas na) universidade: “Nesse contexto, não nos referimos meramente à manutenção do status quo ou à simples preservação da vitalidade da instituição. Buscamos, antes, sustentar uma organização vibrante e ativa, que esteja em constante busca por novas fontes de energia. Não se trata apenas de garantir que haja um presidente para cada uma das comissões existentes; trata-se, na verdade, de combater a perda de energia, mapeando-a, compreendendo-a, enfrentando-a e, por fim, incorporando novas fontes de vitalidade”.
Ao examinarem ações voltadas à neguentropia no âmbito das universidades, identificam quatro caminhos a seguir: a contratação de atores neguentrópicos, especialmente docentes inovadores, para combater a desintegração natural das instituições; a facilitação por parte da liderança; o ensino voltado para ações neguentrópicas; e o trabalho ativo do corpo técnico-administrativo.
A escassez de estudos específicos leva os autores a recomendar cautela. Por exemplo, na primeira das quatro vias identificadas: “É importante reconhecer, contudo, a necessidade de equilíbrio; a contratação exclusiva de atores neguentrópicos poderia gerar excesso de disrupção, fragmentação e mudanças”. Essa anotação recende à tradicional recomendação de buscar a combinação ideal entre tradição e mudança para que uma instituição se perenize.
O avanço em direção ao tópos elevado proposto pelo professor Naomar para a universidade brasileira requer estratégias neguentrópicas. Para tanto, a universidade pública brasileira tem que superar dois desafios principais. O primeiro é o de reduzir a entropia decorrente do ambiente regulatório, que tem duas proveniências: a regulamentação que afeta o ensino superior e a interpretação prevalente do direito administrativo, em que a lógica do controle sobrepuja a lógica da entrega de resultados.
A importância dessa mitigação motiva um esforço coletivo de universidades federais e estaduais para assegurar, na prática, a autonomia estabelecida pela Constituição Federal. Faz parte dessa iniciativa o Ciclo Nacional de Seminários sobre Autonomia Universitária, que em 2024-25 realizou eventos nas cinco regiões e na Capital do Brasil.
Cabe reconhecer avanços importantes havidos desde 1988, com destaque para a autonomia financeira conquistada pelas universidades estaduais paulistas e catarinense há mais de três décadas e, recentemente, também pelas congêneres potiguar e paraibana. Contudo, “a autonomia universitária no Brasil segue como um princípio em disputa, frequentemente tensionado por normativas ultrapassadas, controles excessivos e instabilidades orçamentárias que limitam a capacidade de planejamento, inovação e gestão estratégica das universidades”, indica a Carta de Brasília, emitida ao final do ciclo.
Reafirmam as instituições participantes que “A autonomia universitária, consagrada como princípio constitucional, é um bem público, um valor civilizatório e um instrumento fundamental de afirmação da democracia, da justiça social e do desenvolvimento soberano. Onde há universidades autônomas, há liberdade de pensamento, inovação científica, produção de conhecimento crítico e compromisso com o bem comum”.
Um outro desafio, de cariz cultural, é a universidade se perceber e ser percebida como um sistema aberto, dotado de interfaces porosas. A estratégia deve refletir também no discurso acadêmico: mais do que registrar “os impactos da universidade na sociedade”, fórmula contemporânea recitada repetidamente, vale estimular, desenvolver e destacar contribuições mutuamente proveitosas entre a universidade e os demais segmentos da sociedade. Sociedade da qual a universidade não é organismo externo, mas parte integrante, é sempre bom lembrar.
A pergunta “qual universidade queremos?” é inseparável da questão de que forças conseguimos mobilizar para assegurar a autonomia plena, assim como da capacidade de dinamizar as interfaces da universidade com o seu entorno relevante. O esforço coletivo, estratégico e permanente, de lidar com a entropia institucional é condição de possibilidade para qualquer topia desejada para a universidade.
(*) Guilherme Ary Plonski, professor sênior da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP e do Instituto de Estudos Avançados da USP
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Fonte:Campograndenews.com.br Autor:
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