Em maio deste ano, o governo federal aprovou a obrigatoriedade da implementação da norma NR-1. O termo obriga empresas brasileiras a identificarem e combaterem riscos psicossociais, como assédio moral, sobrecarga de trabalho e ambientes tóxicos, que afetam diretamente a saúde mental dos trabalhadores.
No entanto, dados do Relatório Global da Fearless Organization, aos quais a CNN Brasil teve acesso antecipadamente, mostraram que o Brasil ainda tem um desafio para melhorar a qualidade da saúde mental dentro das empresas.
Segundo o levantamento, a pontuação média de segurança psicológica no Brasil está entre 6,2 e 6,8 em uma escala de 0 a 10. Esse valor está abaixo da média global, que é em torno de 7,1.
Entre as principais barreiras relatadas por equipes brasileiras estão o medo de consequências negativas ao expressar opiniões ou levantar problemas — o que foi mencionado por aproximadamente 40-45% dos respondentes —, e cultura hierárquica e baixa confiança na comunicação com a liderança.
“Esses dados revelam que muitos trabalhadores ainda não se sentem seguros para falar, questionar ou errar sem medo de punição”, observa Thatiana Emerich, executiva de Relações Humanas (RH) e fundadora da WeConsultRH, à CNN Brasil.
“Baixos níveis de segurança psicológica estão associados a altos níveis de estresse, ansiedade e exaustão, pois o medo constante mina a energia e a confiança. Ou seja, não se trata apenas de falta de bem-estar — é um sinal de que o ambiente de trabalho ainda não favorece o aprendizado, a inovação e o cuidado humano”, completa.
O que é a norma NR-1 e o que muda com ela?
A NR-1 é uma norma geral de segurança e saúde no trabalho no Brasil. Ela estabelece as diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e, recentemente, inclui a gestão dos riscos psicossociais.
Com a sua obrigatoriedade, a norma exige que as empresas identifiquem, avaliem e controlem todos os riscos presentes no ambiente de trabalho, incluindo fatores relacionados à saúde mental, como estresse, assédio moral, burnout e sobrecarga emocional. Em outras palavras, todos esses riscos devem ser diagnosticados e monitorados pelas empresas.
“Na prática, a nova NR-1 amplia significativamente o olhar da saúde e segurança no trabalho. Antes, a responsabilidade das empresas estava concentrada apenas em seus colaboradores diretos. Agora, com a atualização, essa responsabilidade se estende também aos profissionais terceirizados que atuam em suas operações”, explica Emerich.
Isso significa que as organizações precisam assegurar condições seguras, físicas, emocionais e psicossociais, a todos que contribuem para o negócio, independentemente do vínculo contratual, segundo a executiva.
“Além disso, a norma passa a incluir os riscos psicossociais como parte integrante da gestão de segurança, o que exige que as empresas avaliem o clima psicológico das equipes, identifiquem fatores que geram medo, estresse ou assédio, e adotem medidas preventivas”, completa.
Para Emerich, trata-se de uma mudança de paradigma: de um modelo reativo (corrigir acidentes) para um modelo proativo e cultural, voltado à segurança psicológica, ao bem-estar e à construção de ambientes de confiança, abertura e aprendizado.
Expectativas para o futuro
O relatório da Fearless Organization mostrou que empresas que possuem uma pontuação acima de 7,5 em segurança psicológica no Brasil também tiveram um nível até 30% maior de engajamento e 40% menos intenção de rotatividade, em comparação com equipes com baixa segurança psicológica.
“A cultura brasileira, mais relacional e empática, oferece uma base poderosa para construir ambientes de apoio e pertencimento. Quando essa empatia é combinada com segurança psicológica estruturada — ou seja, clareza, responsabilidade e liberdade para falar — cria-se um terreno fértil para equipes de alta performance”, afirma Emerich.
As diretrizes da norma NR-1 puderam ser iniciadas pelas empresas com caráter educativo em 2025, mas a prática se tornará obrigatória a partir de 26 de maio de 2026. Para isso, será necessário um plano de ação estruturado e contínuo, segundo a executiva. As empresas podem começar por quatro grandes frentes:
- Diagnóstico: medir o nível atual de segurança psicológica e mapear os riscos psicossociais com instrumentos confiáveis;
- Sensibilização e capacitação: promover treinamentos e diálogos sobre segurança psicológica, liderança empática e prevenção de riscos emocionais;
- Ação estruturada e preventiva: implementar canais de denúncia seguros e confidenciais, políticas eficazes contra assédio e discriminação, além de revisar a carga de trabalho e a jornada dos colaboradores para evitar exaustão e desequilíbrio emocional;
- Monitoramento contínuo: reavaliar periodicamente o clima psicológico, acompanhar indicadores e ajustar práticas com base em dados e feedbacks reais.
“Esses passos fortalecem a cultura de confiança, respeito e aprendizado, transformando a segurança psicológica em um componente essencial da gestão organizacional e do cuidado coletivo”, afirma Emerich. “No futuro, Espera-se ver líderes mais conscientes, equipes mais seguras e culturas mais humanas”, finaliza.
Fonte:CNNBrasil Autor: gabrielamaraccini
*Conteúdo produzido com suporte de IA






